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Beatriz Nunes

Uma cadeira, uma cadeira

Grandmother was a fadista

the numbers

bpm
152
key
B minor
energy
0.71
dance
0.94
valence
0.47
vocal at
2.5s
length
3:04
language
Po

lyrics

Na sala, às nove e sete,

havia só o teu casaco no sofá;

ao lado da mesa, o vidro em silêncio,

e eu vi a segunda cadeira chegar.

A madeira riscada, pernas tortas,

encostada à parede, sem um som;

ninguém abriu a boca na cozinha,

mas a casa ficou com outro tom.

Passei a mão no encosto frio,

como quem confere o sal na pele;

tu olhaste para o chão da sala,

e eu soube: isto não é novela.

Uma cadeira, uma cadeira

Uma cadeira, uma cadeira

Ficou no quarto sem aviso

E eu fiquei a olhar o sitio

De manhã, o autocarro das oito,

a tua chávena a secar no balcão;

duas chávenas, dois pratos, dois risos

reflectidos na janela da manhã.

A cadeira nova, junto à estante,

com um risco preto no lado esquerdo;

eu puxei-a devagar, milímetro a milímetro,

como quem testa o peso do que é certo.

Uma cadeira, uma cadeira

Uma cadeira, uma cadeira

Ficou no quarto sem aviso

E eu fiquei a olhar o sitio

No prédio da Rua da Madalena,

ouvi-se uma porta às dez e vinte e três;

tu mudaste a loiça na prateleira,

e eu aprendi a não perguntar de vez.

Uma cadeira, uma cadeira

Uma cadeira, uma cadeira

Ficou no quarto sem aviso

E eu fiquei a olhar o sitio
Uma cadeira, uma cadeira — Beatriz Nunes · FERAL