← stationFERAL
Beatriz Nunes

Nunca disseste

Grandmother was a fadista

the numbers

bpm
99
key
F major
energy
0.69
dance
0.87
valence
0.48
vocal at
7.1s
length
3:29
language
Po

lyrics

Na mesa da cozinha, um prato lascado

e o teu casaco no encosto da cadeira.

Eu trouxe um teste com vinte e um marcado,

tu limpaste os óculos, sem dizer nada de maneira.

Mas houve um dia, na porta da escola,

a tua mão tremeu no papel dobrado.

Não foi abraço, não foi frase solta,

foi esse bolso fechado e guardado.

Nunca disseste

Nunca disseste

Nunca disseste

Nunca disseste

mas guardaste a minha foto na carteira.

Nunca disseste

Nunca disseste

Nunca disseste

Nunca disseste

e a tua prova foi tão pequena e certeira.

No domingo, no comboio para o Cais do Sodré,

vi o teu olhar fugir da minha cara.

Na caixa do recibo, em cima do bilhete,

estava a minha medalha de escola amarrada.

Era só metal, fita azul gasta,

e um risco no verso, com a tua letra.

Não disseste "orgulho", nem "estás tão alta",

mas levaste aquilo como quem protege.

Nunca disseste

Nunca disseste

Nunca disseste

Nunca disseste

mas guardaste a minha foto na carteira.

Nunca disseste

Nunca disseste

Nunca disseste

Nunca disseste

e a tua prova foi tão pequena e certeira.

No bolso do avental, junto ao molho das chaves,

eu achei o meu desenho com tinta seca.

A casa tinha pó no peitoril das janelas,

e ali, bem no meio, estava a minha estrela torta e preta.

Tu não soubeste dizer.

Eu soube ver.

Nunca disseste

Nunca disseste

Nunca disseste

Nunca disseste

mas guardaste a minha foto na carteira.

Nunca disseste

Nunca disseste

Nunca disseste

Nunca disseste

e a tua prova foi tão pequena e certeira.